o que é ter bom gosto?
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Eu sei, que assim como eu, você já questionou se algo era de bom gosto.
Falar sobre bom gosto sempre parece simples, mas basta tentarmos definir o que ele é para perceber que estamos pisando em um terreno muito mais construído do que imaginamos. Afinal, o que define que algo é de bom gosto? e o que seria ter bom gosto? Esse questionamento surgiu após uma leitura de um texto sobre "O mito do bom gosto" e, para variar, me questionei bastante, inclusive virou tema de uma aula de inglês, onde apresentei esse conceito para minha professora.
Mas enfim, vamos ao que interessa.
Fui pesquisar mais afundo e entendi que o mito do bom gosto começa quando acreditamos que algumas escolhas estéticas são naturalmente superiores a outras. Como se existisse uma escala invisível organizando o mundo entre o refinado e o vulgar, o elegante e o exagerado, o sofisticado e o popular. Essa crença transforma preferência em verdade e apaga o fato de que todo critério estético nasce dentro de um contexto histórico específico. O que hoje parece “equilibrado” ou “correto” já foi visto, em outro momento, como excesso ou ruído.
Gosto não nasce pronto dentro de nós, não é como se viesse um programa instalado em nós (imagina só?). Ele é formado ao longo do tempo, moldado pelas imagens que consumimos, pelos ambientes que frequentamos, pela educação que recebemos e pelos repertórios aos quais tivemos acesso. O que aprendemos a reconhecer como “bonito” ou “adequado” quase sempre é resultado de repetição e convivência, não de uma intuição universal.
Quando chamamos algo de “bom gosto”, muitas vezes estamos apenas refletindo o nosso lugar social. É isso que Pierre Bourdieu defende em A distinção: Crítica social do julgamento. Para ele, nossas preferências em arte, moda ou música são profundamente influenciadas pelo nosso background: educação, classe, acesso cultural. Nesse sentido, o gosto deixa de ser apenas sobre o que você aprecia e passa a ser sobre o que isso comunica sobre quem você é. O gosto funciona como marcador simbólico, uma forma silenciosa de distinção.
Por isso, quando afirmamos que algo é “de bom gosto”, raramente estamos falando apenas de uma sensação individual. Estamos acionando códigos culturais compartilhados, referências que sinalizam pertencimento e familiaridade. O gosto funciona como uma linguagem, ele comunica de onde viemos, com quem dialogamos e quais espaços aprendemos a ocupar. Exemplo: Sempre assimilamos que uma pessoa que ouve ópera tem um bom gosto, mas quando olhamos para a trajetória dela - em grande maioria - essa pessoa foi ensinada por pais que já tinham costume de ouvir esse estilo musical, era levada a museus e sabemos que para ter esse tipo de acesso, normalmente, se tem uma condição financeira mais equilibrada.
O que muitas vezes chamamos de "bom gosto" é apenas o resultado do privilégio.
Agora estamos vivendo um momento em que a brasilidade, ser da América Latina e até mesmo símbolos da periferia tem se tornado elementos "cools" e "aesthetics", mas até certo tempo tudo isso era relacionado a pobreza, e falta de "elegância".
E é nesse ponto que as tendências entram em cena. Elas costumam ser percebidas como movimentos espontâneos, quase orgânicos, mas na prática são processos de seleção e amplificação. Uma estética começa em um grupo específico, circula em determinados ambientes e, aos poucos, é capturada por mecanismos de visibilidade que a tornam mais ampla.
Para que algo se torne tendência, precisa passar por instâncias de validação. Pode ser a mídia especializada, grandes marcas, plataformas digitais, influenciadores ou instituições culturais. Quando essas instâncias repetem e destacam uma linguagem visual, ela deixa de ser apenas uma possibilidade e passa a ser percebida como direção. O que era escolha ganha contorno de padrão.
A repetição tem um papel central nesse processo. Quanto mais vemos determinada estética, mais ela se torna familiar. O que antes parecia estranho passa a parecer interessante; depois, desejável; e por fim, necessário. A familiaridade cria conforto, o conforto cria adesão, e a adesão sustenta mercados inteiros. O ciclo se retroalimenta.

Muitas vezes, o que chamamos de “bom gosto” é apenas o estágio final de uma tendência que já foi amplamente legitimada. Depois de circular, ser filtrada, adaptada e absorvida por estruturas de poder cultural, ela se apresenta como natural. Nesse momento, esquecemos que aquela linguagem já foi vista como ousada, excessiva ou inadequada.
Enquanto algumas estéticas são incorporadas e celebradas, outras continuam sendo marcadas como exageradas ou imaturas. Ela revela quais grupos têm força para transformar suas referências em norma e quais permanecem à margem, sem o mesmo alcance de legitimação.
Questionar o mito do bom gosto é também perguntar como as tendências são construídas e por quem.
Quem decide o que merece visibilidade? Quem tem poder para transformar repertório em regra? E quem fica de fora desse processo, mesmo sendo fonte constante de inovação estética?
Entender que gosto e tendência são construções sociais não diminui o valor da estética. Amplia nossa consciência sobre como imagens circulam e ganham status. Quando reconhecemos esses mecanismos, deixamos de consumir padrões como se fossem naturais e passamos a enxergar a cultura visual como um campo de disputa, negociação e transformação contínua. Muito complicado tratar esse assunto de maneira rasa, ele envolve muitas camadas: cultural, histórica, econômica... Mas vale a pena questionarmos sobre: o que é - realmente - ter bom gosto?.

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