O tempo como matéria da Amazônia
- há 4 dias
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Recentemente tive o prazer de realizar mais um sonho, viajar e conhecer a Amazônia onde durante alguns dias pude vivenciar uma imersão na floresta e em uma cultura totalmente diferente daquela com a qual cresci. Decidi escrever esse relatório para deixar registrado o impacto que essa experiência produziu em minha vida.

Ao longo da viagem, percebi que aquilo que mais me impactava nem sempre eram as paisagens grandiosas ou a biodiversidade pela qual a região é conhecida. O que me chamava atenção estava nos ritmos, nos modos de viver e nas relações criadas e vividas entre as pessoas e o território. Aos poucos, fui entendendo que a Amazônia me convidava a observar algo que raramente ocupa o centro das nossas conversas: os processos. Toda a experiência me fazia pensar constantemente sobre criatividade, direção de arte e sobre a maneira como construímos significado, seja no trabalho ou nas coisas da vida.

Gostaria de começar trazendo a Samaúma para o centro desse pensamento. A primeira vez que a vi fui imediatamente impactada pelo seu tamanho, ela parece desafiar as referências que usamos para compreender tamanho, tempo e permanência nesse mundo, mas quando esse primeiro espanto passou, percebi que o que mais me interessava naquela árvore não era sua monumentalidade, mas aquilo que ela sugeria sobre tudo o que não pode ser visto. A presença impressionante da samaúma depende de uma estrutura invisível, construída lentamente ao longo de décadas ou séculos, sustentada por relações complexas com o solo, com a água, com o clima e com os ciclos da floresta, aquilo me fez pensar em como frequentemente observamos o resultado final de um trabalho criativo sem considerar os processos silenciosos que o tornaram possível. O que aparece costuma receber toda a atenção, enquanto aquilo que o sustenta permanece oculto e essa percepção me impactou durante toda a viagem.
Em diferentes momentos, encontrei elementos que pareciam reforçar a mesma ideia por caminhos distintos como o urucum, por exemplo, me levou a pensar sobre construção de significado. Se observamos, como fruto, ele é apenas um entre inúmeras presenças da floresta, mas ao longo do tempo, virou pigmento, símbolo e também proteção para aqueles que tinham contato com ele, isso me fez refletir sobre o quanto a criação talvez tenha menos relação com invenção e mais com percepção. Muitas vezes imaginamos que o trabalho criativo consiste em produzir algo completamente novo, quando, na verdade, boa parte dele está em reconhecer potencialidades, estabelecer conexões e revelar significados que já estavam presentes, embora ainda não tivessem sido ligados, talvez seja daí que tenha surgido o "roube como um artista"rsrs.

Os igapós me fizeram pensar sobre adaptação, já que durante parte do ano, essas áreas são transformadas pela subida das águas, alterando completamente a paisagem. O que me impressionou não foi só a mudança em si, mas a naturalidade com que ela faz parte daquele ecossistema. A floresta está acostumada a conviver com a transformação que contrasta bastante com a forma como costumamos encarar nossos próprios processos criativos, frequentemente buscamos estabilidade, previsibilidade e métodos definitivos. Mas talvez os sistemas mais resilientes não sejam aqueles que resistem à mudança, mas aqueles que aprendem a existir junto dela e a floresta parece compreender algo que muitas vezes esquecemos: transformação não é uma ruptura do processo, ela é o próprio processo.
Outra questão que permaneceu comigo foi a experiência do tempo. Na Amazônia, o tempo parece adquirir uma densidade diferente. Não seria necessariamente uma lentidão, mas de uma percepção de continuidade afinal tudo está em movimento, mas esse movimento não obedece à lógica da urgência igual ao que vivemos nas grandes cidades. As árvores crescem, os rios remodelam territórios, os ciclos se repetem e a floresta se transforma continuamente sem demonstrar qualquer preocupação com velocidade, tudo no seu tempo. Essa experiência me fez pensar sobre a maneira como lidamos com criatividade em um contexto que valoriza produtividade constante, respostas imediatas e crescimento acelerado. Talvez uma das lições mais importantes da floresta seja lembrar que complexidade exige tempo. Algumas estruturas só conseguem existir porque passaram anos, décadas ou séculos se desenvolvendo e talvez - mais certeza do que incerteza - o mesmo aconteça com repertório e pensamento crítico, essas reflexões acabaram transformando também a maneira como penso direção de arte.
Na Amazônia, nenhum elemento produz significado sozinho, tudo depende das relações que se estabelecem entre diferentes componentes do ecossistema.
A força da floresta não está apenas na riqueza de cada elemento individualmente, mas na complexidade das conexões que os unem e isso me levou a pensar que direção de arte talvez tenha menos relação com a organização de elementos isolados e mais relação com a construção de ecossistemas visuais. O significado não nasce apenas da escolha de imagens, cores ou formas, mas das relações que essas escolhas produzem quando passam a coexistir.
Quanto mais eu observava a floresta, mais difícil ficava sustentar algumas das ideias que frequentemente orientam o trabalho criativo contemporâneo: a obsessão pela velocidade, a busca por originalidade a qualquer custo, a valorização excessiva do resultado em sacrificio do processo e a crença em trajetórias individuais desvinculadas dos contextos que as tornam possíveis. O que a Amazônia me ensinou foi que criação talvez tenha muito menos relação com controle e muito mais relação com cultivo, menos relação com invenção e mais relação com percepção e reutilização, menos relação com respostas rápidas e mais relação com a capacidade de permanecer tempo suficiente diante de algo para compreender as relações que o sustentam. Talvez seja justamente aí que more a criatividade: não na produção isolada de objetos ou ideias, mas na construção de ecossistemas de significado capazes de crescer, se transformar e permanecer vivos ao longo do tempo.




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