O lugar do imperfeito nas capas de revistas
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Por muito tempo, a capa de revista foi entendida como um território de controle absoluto. Especialmente em títulos como a Vogue, a imagem de capa operava como um ideal, composição precisa, fotografia impecável, tipografia estável. Era tudo muito perfeito, mas a perfeição, quando se torna padrão, perde sua capacidade de impactar.

O que vemos hoje, interferências manuais, colagens, desenhos um pouco infantis, anotações não é uma mudança do nada. É parte de um movimento cíclico na história da moda e da cultura visual, onde momentos de excesso técnico são seguidos por retornos ao gesto, ao erro e ao humano, o que chamamos de contra cultura.
Para entender isso, vamos olhar um pouco para trás.
No início do século XX, movimentos como o Dadaísmo já trabalhavam com colagem, recortes e recusa da lógica estética tradicional. Artistas recortavam jornais, misturavam tipografias, criavam composições propositalmente “mal resolvidas”. Era uma forma de criticar diretamente à ideia de ordem e racionalidade que dominava o pensamento da época.

Logo depois, o Surrealismo leva essa lógica para o campo do inconsciente. A imagem passa a ser construção simbólica, muitas vezes ilógica e instável. Essas linguagens não ficaram apenas referentes à arte. Elas se fizeram presentes para a moda editorial em diferentes momentos.
Nos anos 80 e 90, por exemplo, o trabalho de Neville Brody e David Carson já ignorava a legibilidade, quebrava grids e tratava a página como um campo experimental, a estética “errada” era, na verdade, uma resposta ao excesso de padronização do design moderno.
Paralelamente, na moda, fotógrafos como Juergen Teller introduzem uma crueza proposital como o flash direto, enquadramentos estranhos, ausência de glamour. Tudo isso foi uma escolha estética, uma tentativa de reaproximar a imagem de algo mais real, mais humano.
Mas, o que diferencia o momento atual é o contexto tecnológico.
Vivemos uma era em que softwares conseguem produzir imagens extremamente refinadas em escala e velocidade inéditas, assim o “perfeito” deixou de ser raro e tornou-se acessível, replicável, quase automático. E a gente sabe que quando tudo é perfeito, o perfeito se torna invisível.
É aí que o manual retorna mais como linguagem do que técnica. Do ponto de vista do comportamento humano, isso se conecta diretamente com a forma como percebemos autenticidade. Eu, particularmente, tenho a sensação de que pequenas irregularidades como assimetrias, falhas, marcas de processo, funcionam como sinais de presença humana, algo feito à mão.

O manual funciona como uma ponte entre pensamento e imagem, ele não traduz a ideia de forma limpa, mas sim carregando, sentimentos ruído, interpretação. Por isso, muitas dessas capas parecem mais próximas de um caderno de criação do que de um produto final. Elas não escondem o processo e sim o expõem como parte essencial da história.
É importante dizer que esse movimento já vinha sendo explorado por artistas e diretores de arte, no meu próprio trabalho, por exemplo, essa relação com o manual, com a colagem e com a interferência direta na imagem já aparece há alguns anos. Quando algum veículo usa desenhos, colagens e interferências visíveis na própria capa, está bem longe de abandonar o luxo. O manual passa a ser parte central da imagem, comunica algo também.

