top of page

AS VOZES DA MINHA CABEÇA

Vocabulário de prestígio

  • há 1 dia
  • 4 min de leitura

Por que palavras como repertório, curadoria e pesquisa ganharam tanto espaço no mercado criativo? Se pararmos para observar, elas aparecem em apresentações de projetos, portfólios, discursos de marca, entrevistas e biografias profissionais quase sempre associadas à ideia de uma criatividade mais consciente, mais sofisticada e menos interessada apenas na execução, e confesso que amo usar essas palavras, pois acredito que descrevem bem o meu trabalho e também o meu processo. Mas, não acho que seja coincidência, conseguimos ver também que existe uma mudança cultural acontecendo na maneira como o trabalho criativo é percebido e valorizado, e talvez essas palavras sejam uma das formas mais evidentes de perceber essa mudança. Se antes o domínio técnico e a capacidade de produzir uma boa imagem eram suficientes para construir autoridade, hoje existe uma valorização crescente daquilo que acontece antes da imagem como a pesquisa, a interpretação, a capacidade de estabelecer relações e ligar pontos entre referências e transformar informação em linguagem, principalmente visual.

É interessante observar como cada uma dessas palavras passou a carregar um valor que vai além do seu significado literal. Quando alguém diz que um projeto veio de uma “pesquisa visual”, não está apenas informando que procurou imagens antes de começar e sim comunicando uma maneira de trabalhar, uma posição profissional, e quando alguém fala em “curadoria”, também não está apenas dizendo que escolheu algumas referências, mas reivindicando a existência de um critério por trás dessa escolha. O mesmo acontece com “repertório”, que talvez seja uma das palavras mais interessantes desse vocabulário, afinal ter referências deixou de ser suficiente e agora é preciso demonstrar que essas referências foram acumuladas, processadas e transformadas em conhecimento próprio. Podemos chamar esse movimento de vocabulário de prestígio, onde são palavras que não apenas descrevem uma prática, mas ajudam a construir a imagem de quem as utiliza como alguém que pesquisa, pensa, observa e possui uma visão própria do seu processo, tudo isso relacionado ao branding e o valor criado em cima desse posicionamento.


foto central: Extraterrestrial, a photograph and concept by Abhishek Gambhir
foto central: Extraterrestrial, a photograph and concept by Abhishek Gambhir


Vivemos em um momento em que produzir imagens se tornou extremamente acessível, temos ferramentas, referências e possibilidades de execução disponíveis em uma escala que nunca tivemos antes e a questão deixou de ser apenas “você consegue fazer?” e passou cada vez mais a ser “o que você faz com tudo aquilo que consegue acessar?”. Em um ambiente saturado de imagens, a capacidade de selecionar, interpretar e estabelecer relações começa a adquirir um valor diferente e é nesse contexto que palavras como curadoria e repertório ganham tanta força. Elas respondem a uma necessidade atual de diferenciar quem apenas consome referências de quem consegue construir pensamento a partir delas.

Mas existe uma contradição interessante nesse movimento justamente porque essas palavras também começaram a ser usadas como uma espécie de verniz e máscara, onde o uso dessas palavras fosse um passe mágico para comunicar uma certa profundidade. É possível falar sobre repertório sem que exista necessariamente uma elaboração sobre as referências acumuladas; falar em curadoria quando houve apenas uma seleção intuitiva de imagens; chamar de pesquisa aquilo que foi apenas uma busca rápida no Pinterest; falar em narrativa quando existe apenas uma sequência de imagens acompanhada de um texto conceitual.

Acredito muito que o problema não está nas palavras, e muito menos na tentativa de tornar o processo criativo mais consciente, mas sim quando o vocabulário passa a ocupar o lugar da prática que deveria sustentar.

E claro, eu e as vozes da minha cabeça sempre estamos fazendo perguntas, afinal o que significa, de fato, ter repertório? Em que momento uma referência deixa de ser apenas uma referência e passa a fazer parte da nossa maneira de pensar? O que diferencia curadoria de uma coleção de imagens bonitas? O que uma pesquisa precisa provocar em um projeto para que ela seja realmente pesquisa? E, principalmente, o que significa ter uma linguagem própria em uma cultura visual em que quase tudo já foi visto, reproduzido, remixado e transformado em referência?


Talvez esse seja o movimento mais interessante por trás de todas essas palavras e estamos valorizando cada vez mais a pessoa que consegue construir sentido entre as coisas, e não apenas produzir coisas. O trabalho criativo começa a ser entendido também como um exercício de investigação, interpretação e conexão, e isso não torna a execução menos importante, mas muda o lugar que ela ocupa, onde a imagem passa a ser consequência de um processo maior, e não necessariamente o ponto de começo. 

No fim, não acho que o problema seja termos um novo vocabulário para falar sobre criatividade, toda mudança cultural produz novas palavras, ou pelo menos dá novos significados às antigas. Não acredito que a questão não seja parar de falar em repertório, curadoria, pesquisa ou narrativa, mas perguntar se o nosso trabalho é capaz de sustentar essas palavras quando elas deixam de estar em uma apresentação e passam a ser colocadas à prova.

Esse post não é uma crítica a essas palavras ou às pessoas que as usam, mas sim uma forma de pensarmos se conseguimos sustentar aquilo que falamos que está atrelado ao nosso trabalho, é importante sim melhorarmos nosso vocabulário para algo que valorize o que fazemos, mas nossas ações também precisam acompanhar aquilo que é dito. :)

 
 
 

Comentários


bottom of page